O que somos hoje começa no momento da nossa formação, na vida intrauterina

Nesse milésimo de segundo já o começamos a ser e, a partir desse momento, qualquer ação vai moldar quem seremos no futuro.

Créditos do fotógrafo Divulgação/123RF

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24/11/2020

O momento em que o óvulo é fecundado é o início da nossa formação tanto física como intelectual. Nesse milésimo de segundo já o começamos a ser e, a partir desse momento, qualquer ação vai moldar quem seremos no futuro.

Em nosso estágio embrionário carregamos a nossa memória genética que traça um percentual significativo de quem seremos no futuro. Esta memória celular irá afetar tanto quem seremos física como psicologicamente. Uma memória primitiva será impressa em nós, um carimbo do conjunto formado pelos antepassados por via paterna e materna. Nós carregamos geneticamente informações que nos foram transferidas por nossos pais, pelos pais deles, pelos avós deles e por aí adiante. Nós somos a genética gerada pelo acaso de pessoas que se uniram num passado. Nós somos o testemunho das suas vivências físicas e psicológicas e somos moldados por elas.

“Somos o resultado de um somatório de acontecimentos que se inicia desde a gestação.”

O ser humano é algo de extrema complexidade. O embrião é um “ser humano” em potência, isto é, guarda nos segredos da fecundação um “projeto de vir a ser”.

Não somos inteiros nos momentos da feitura do ser (fecundação), mas o pré-projeto está arquivado na semente primitiva implantada logo no início da vida intrauterina.

Este projeto é contínuo e passa por diversas fases.

Somos uma obra aberta, uma edificação de muitos andares.

“O interior (mente) formata o exterior (físico), que por sua vez reformata o interior e um alinha o outro.”

Há vários fatores que nos influenciam. Durante a gestação, o estresse a que estamos sujeitos (pelos comportamentos maternos e o meio onde a mãe se move) e até mesmo a alimentação ingerida pela progenitora, traçam um percentual da nossa personalidade. Por outro lado, a forma como nos educam desde o nascimento até a consciência de nível sapiens traça um outro aspecto distinto. Cada fase das nossas vidas é uma pilar da nossa personalidade (a infância, a adolescência e até a velhice); tudo isso vinculado ao clima, cultura, sociedade, vivência.

Quando adulto, temos um cognitivo melhor formatado com todos estes somatórios. Somos nós em máxima potência.

Quando velhos, adquirimos ainda conhecimento de forma lenta e passamos nossos dias relembrando o passado como uma retrospectiva em forma de despedida. Tendo a consciência da aproximação do fim, avaliamos como foi a vida.

“A percepção da realidade da vida e dos seus limites nos tornam afáveis.”

Numa perspectiva um pouco mais pessoal, gostaria de levar o tema para um outro campo: o quanto as vivências dos nossos antepassados afetam a nossa personalidade. Numa opinião muito própria, penso que um grande trauma ou perda vivenciada por um dos nossos progenitores ou avós poderá ser passada como informação genética. Imagine que tenha uma fobia completamente infundada, um medo que não conhece a razão, um sentimento estranho que o invade sem explicação, não serão esses aspectos que nos foram transferidos geneticamente? Da mesma forma que as adaptabilidades físicas são traços genéticos, as vivências psicológicas também podem ser. Um medo como uma proteção. Se eu tive e isso me traumatizou, o meu filho levará algo com ele que o fará repensar ao dar o mesmo passo — algo inconsciente —, mas que de certa forma o trava, o faz bloquear e pensar duas vezes.

O campo genético é extremamente complexo e alargado e estamos muito longe de saber como somos exatamente e o peso de cada parâmetro na nossa formação. Mas algo é certo, somos ambiente e genes, na sua mistura, na sua complementaridade.