A moda do rosto retangular mostra que ainda somos primatas

A harmonização facial está em alta e dá a possibilidade aos que procuram este procedimento de conquistar formas e curvas consideradas mais harmônicas para o rosto. Contudo, apesar de o conceito
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15/08/2019

A harmonização facial está em alta e dá a possibilidade aos que procuram este procedimento de conquistar formas e curvas consideradas mais harmônicas para o rosto. Contudo, apesar de o conceito de um rosto de proporções ideais ter se modificado ao longo do tempo, pesquisadores apontam que alguns conceitos de beleza contemporâneos. De acordo com os pesquisadores, o resultado destes procedimentos em homens, o que em geral resultam em rostos mais retangulares e com mandíbulas mais pronunciadas, na verdade, apontam mais para o passado e o legado da nossa essência primitiva do que para nosso futuro tecnológico. 

O filósofo Fabiano de Abreu em uma de suas teorias aponta que a moda atual do rosto retangular e a impressão de força e poder que ele dá, está ligado ao nosso cognitivo primata: "Hoje, muitos homens têm recorrido a harmonização facial em busca de um rosto mais harmonioso e assim obtido como resultado um rosto com formato mais retangular, considerado belo, mais masculino e com aspecto de uma pessoa forte e poderosas, como os super-heróis, que por sinal, tem o rosto retangular. Isto na minha concepção está ligado ao nosso cognitivo primitivo, sim, da era dos homo sapiens e neandertal. Homens estão a aplicar ácido hialurônico para deixar a mandíbula mais retangular e o queixo mais largo e pronunciado, o que dará a impressão ao sexo oposto de que o homem é mais forte e mais viril, e este conceito não é novo, e sim herdado de nossa ancestralidade primitiva”.

A arqueóloga Joana Freitas também concorda com as teorias de Fabiano e aponta evidências antropológicas: "Quando olhamos para os rostos masculino e feminino existe uma primeira diferença evidente. A mandíbula masculina é muito mais quadrada e pronunciada em comparação com a mandíbula feminina, que possui linhas muito mais suaves. Em termos evolutivos a mandíbula humana foi perdendo força, pois o esforço empregado para se alimentar diminuiu quando começamos a cozinhar os nossos alimentos. No entanto, está característica facial é muitas vezes associada a fatores ligados à atração. Como se primitivamente essas características surgissem no nosso cognitivo como sendo sinônimo de indivíduos de bons genes e bons reprodutores. A nossa essência continua a ser primata e animal”.

Era das selfies

O filósofo também destaca que a supervalorização da estética tem a ver com a necessidade de ser aceito na chamada era das redes sociais e das selfies: "Vejo que hoje o investimento em cirurgias estéticas, salvo os casos em que isto se faz realmente necessário, como deformidades de nascença ou cirurgias reparadoras, é como um disfarce, uma máscara, para mostrar à sociedade o que não conseguimos mostrar talvez com a capacidade intelectual. E na era das mídias sociais, das selfies e de uma exposição em níveis jamais antes experimentados na história da civilização humana, a preocupação com a estética atinge o seu ápice. Se as vidas das pessoas fossem os seus perfis nas redes sociais, tudo seria realmente muito diferente do que realmente é. Somos apenas animais tentando nos adaptar e provocar boa impressão entre os nossos através da nossa aparência, em busca de aceitação”. 

Exageros em nome da estética

Fabiano embora não se posicione contra os procedimentos estéticos, alerta para os abusos cometidos em nome da beleza: “Não se pode negar, dada a nossa natureza primitiva e a tendência que temos a sermos atraídos pelo que os nossos olhos nos mostram, que uma boa apresentação faz a diferença. Contudo, acredito que podemos usar a inteligência para fazer isto de uma forma saudável e sem agredir o corpo ou a nossa mente, sem que tenhamos que ser o que não somos, como uma personagem, mas aceitando quem somos. Não sou contra os procedimentos estéticos, e sim contra o exagero, o abuso, a quase anulação da autoimagem em prol de uma obsessão. A busca incansável pela suposta perfeição pode levar, como efeito colateral, não apenas a corpos deformados, mas a outras distorções muito além do físico”.

Alternativas possíveis

Como alternativa aos procedimentos, o filósofo acredita que existem muitos outros meios: "acredito que o caminho que leve a estarmos bem com a nossa autoimagem não necessariamente passe por uma mesa de cirurgia, salvo os casos já citados que demandam intervenção cirúrgica. Por exemplo, uma barba maior e mais bem cuidada, no estilo lenhador, pode trazer ao rosto características mais masculinas e a impressão de força e virilidade pretendida. Isto sem precisar de agulhas, sem preenchimentos, sem sofrimento. Investir em roupas, em vestir-se melhor, pode transmitir também uma mensagem positiva. São muitos recursos que podem ser usados para valorizar o exterior sem que seja necessário negar a si mesmo e se submeter aos ditames do modismo. 

O filósofo recorre a questão evolutiva e da inteligência como principal atrativo: "A beleza exterior pode atrair, em especial as pessoas mais fúteis, mas o conjunto da obra, conteúdo e boa apresentação, podem causar as melhores impressões em pessoas mais interessantes e relevantes para os seus objetivos sociais, pessoais e profissionais. E ai está a evolução:, em identificar que temos sim nossa herança primitiva e a propensão a se deixar levar pelo apelo visual, mas usar tais informações ao seu favor, de modo inteligente, para atrair para si o que se quer. Muito além de um rosto retangular e da força física, está aquilo que podemos conquistar e realizar com o nosso intelecto.”